Meu Inimigo Favorito: os Minions de João Konno.

Resumo:

Na série Minions, de João Konno, variadas pinturas e objetos de arte se dispõem pelo espaço contestando as circunstâncias sociopolíticas que originaram uma franquia como a de Meu Malvado Favorito, e suas reverberações em nossa realidade globalizada.

Nesse contexto, o artista revela um panorama de Capitalismo Tardio radicado na existência dos minions. A colocação de temáticas como luta de classes, globalização, fascismo e guerra surge não como um conjunto de pautas paralelas, simbólicas, mas sim como a explicitação de determinadas problemáticas em uma mídia infantil tão difusa.


Como exibida no Espaço das Artes do Sesc Paço da Liberdade, a disposição em constelação dos trabalhos propicia conexões para além dos limites do quadro. Pinturas sem moldura trilhando atalhos relacionais entre si. Determinada espacialização ordenada pelo artista desmascara os trabalhos como objetos passíveis à ordem do espectador, os revelando como entidades conscientes da própria perversidade. Cada imagem de minion reconhece uma a outra, ao mesmo tempo em que reage à aquele cenário bélico.

“Muitas das deformações e estereótipos, das metamorfoses e catástrofes que afetam o mundo da óptica nos filmes encontram-se de fato em psicoses, alucinações e sonhos (…) O filme abriu uma brecha naquela antiga verdade heraclítica segundo a qual os acordados têm cada um mundo para si. E o fez muito menos apresentando o mundo do sonho do que criando figuras do sonho coletivo, como o mundialmente famoso Mickey Mouse.” (BENJAMIN, Walter. A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica pg. 89).

A série Minions (2024-2025) emerge dentre um contexto de saturação de mídia. As imagens de guerra e deterioração das condições de trabalho representadas pela estética do universo de Meu Malvado Favorito se apresentam não como uma paródia dos filmes da franquia Minions, mas sim como uma revisão que evidencia como tais situações já estavam intrinsicamente impregnadas no universo dos personagens amarelos. Esse conjunto de trabalhos de arte permite que politizemos o olhar diante de mídias tão triviais como tal. A fabricação de um personagem anti-herói, geneticamente hábil à servidão, não existe sem um contexto e intenção específicos.

O minion de Konno existe como um simulacro; não há distorções, paródia ou hipérboles, apenas exposição daquilo que a própria saga oficial da Universal Studios dissemina mundo a fora. A série Minions (2024-2025) evoca um questionamento crítico desta mídia de grande circulação. O grande estalo com esse trabalho artístico é perceber como as imagens retratadas pelo artista se fazem coerentes perante a franquia original. O deslocamento do minion do espaço das imagens de alta circulação para o espaço das Artes possibiliza um despertar de um estado de anestesia. Mediante a supersaturação de imagens de violência, a natureza vil do minion transita com normalidade pelos mais variados públicos. O trabalho estético-conceitual de João Konno nos elucida a algo que sempre esteve claro em nosso campo de visão.

Marcha (2024) exibe uma composição trinca. 3 elementos principais situados: os minions, a listra azul, e o espaço vermelho; 3 minions presentes na tela e 3 cores primárias predominantes . Na pintura, os seres se encontram despidos e armados, em uma revolta contra seu uniforme. Sem roupa alguma, agora são manchas puramente amarelas contestando outra mancha puramente azul, a qual se recua na extremidade esquerda do quadro; em um espaço vermelho (cor resulta da mistura de amarelo com magenta) que se merge parcialmente às criaturas.

O macacão estandardizado vestido por todos os minions não poderia ser de qualquer outro material a não ser o jeans. Notável símbolo da padronização de corpos, mediante a globalização. A revolta dos minions contra seus uniformes não é apenas sobre a vestimenta de trabalho, mas também a tudo que o jeans representa mediante a impessoalização do indivíduo. 

Marcha apresenta uma mobilização coletiva de luta de classes. A sombra de cada indivíduo minion une-se uma à outra, formando uma mancha unitária que preconiza a chegada de uma violenta mudança.

Sem Título (2025). Caixa de remédios e minions de plástico, 22 x 12cm. Fonte: acervo pessoal.

No trabalho acima, a explícita instigação ao consumo ocupa dois sentidos. Em um primeiro momento, a composição do objeto incita que haja uma consumação literal da miniatura amarela. O personagem minion, já naturalmente em formato de pílula, se demonstra como apto à deglutição. Assim como remédios têm seu formato desenvolvido pensando na otimização de seu consumo, essas criaturas amarelas também passaram pelo mesmo processo. A imagem produzida pelo artista instiga a repensarmos os processos de produção destes personagens manufaturados sob medida ao modelo fordista. Além disso, a indicação do minion como um medicamento de uso contínuo (3 vezes ao dia, todos os dias) questiona as medidas tomadas pela classe trabalhadora para resistirem suas extensas jornadas de trabalho. Quando a exaustão é a norma; as drogas surgem como forma de remediar os adoecimentos provocados pelo trabalho. Tal duplicidade na compreensão da ideia de consumo acompanha extensivamente a existência dos minions.

Ponderando a respeito da elaboração relacional entre trabalhos, um dos percursos observados é o da disposição vertical cima-baixo, respectivamente, da pintura do avião-bombardeiro e a do minion ao fundo roxo. Cada peça de arte produz um recorte na parede, que exibe fragmentos de uma mesma cena totalizada. Nisso, o minion mais abaixo desta disposição reage ambiguamente ao caça padronizado como aos de Israel, disparando sequencialmente outras mais figuras amarelas de jeans. Em uma mesma situação, o minion é vítima daquele terrorismo ao mesmo tempo em que é arma. Considera-se, nesta situação da pintura à cima-direita, o minion também como uma arma ideológica a colidir em território inimigo. O imperialismo cultural estadunidense como estratégia de devastação e dominação.

Nesse contexto, é imprescindível reconhecer as múltiplas posições que o trabalhador minion ocupa na contemporaneidade. Reconhecendo estas ocupações, identificamos o paradigma daquele que perpetua a violência, ainda que servindo apenas de bucha de canhão. Também questionando quais meios de consumo são propagandeados por essa ideologia sustentada no universo de Meu Malvado Favorito.

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