Narrativas Ultra-Contemporâneas pelo Rastro do Consumo: Castrenhos e a Ecologia Visual.

Castrenhos, na prática de assemblage, sutura objetos variados para a composição de uma nova imagem ressignificada. A estruturação visual de seus trabalhos ocorre de maneira dupla: ao mesmo tempo em que existe como a formação de uma figura singular homogênea também pode apresentar-se como a conjunção de vários muitos. Definir um único modo de apreensão visual na produção do artista torna-se impossível. As dinâmicas do micro-macro e perto-longe demandam do espectador um olhar bifocal. Apenas com a consideração da totalidade, simultânea e não-excludente à assimilação dos elementos de maneira individual, contempla-se o fazer artístico de Castrenhos.

Nisso, ainda que produza objetos tridimensionais, estes se dispõem em um plano como plenas pinturas. Por vezes, a frontalidade toma protagonismo nestes trabalhos, provendo um campo fértil de suporte aos bibelôs e outros mais cacarecos. Castro territorializa pequenos lotes de área destinados à arte, os cercando com molduras variadas, e orquestrando um sistemático êxodo dos objetos mundanos (e excepcionais na ordinariedade) adentro deste mundinho. Seu processo criativo pauta-se na reunião; união de bugigangas fabricados nos mais distantes cantos do mundo que se re-unem, num reencontro de porções de uma mesma massa plástica comum originária.

Na produção de Castrenhos a manipulação estratégica da moldura se faz presente no campo estético-conceitual. Ao lidar com a assemblage, trata de um mecanismo de apropriação diferente do ready-made: a composição total, irredutível, dos itens que compõe a obra. Quarta à Noite e Quinta de Manhã (2024) surge à primeira vista como o recorte de uma cena real congelada no tempo. A seleção coerente dos componentes incita uma narrativa específica, daquele presente na fotografia. Adicionalmente, a disposição sobre tapete identifica um tom de realidade àquela peça; com os objetos posicionados à lógica horizontal, de acordo com a gravidade atuando sob o carpete ao chão. Entretanto, no instante em que o artista dispõe esta imagem realista à parede e comporta todos os objetos estritamente aos limites do tapete, expressa o caráter pictórico deste trabalho. A moldura, que enquadra, segrega o mundo dos objetos comuns aos objetos de arte. Nesse contexto, o emolduramento nos trabalhos de Castrenhos indicia um elemento clássico da pintura, apesar de exibir técnicas contemporâneas de composição pictórica. Ainda que ocasionalmente defina sua produção sob a denominação de objeto, a lógica da pintura resplandece fortemente. Tais trabalhos exibem-se como o resultado de uma intensa colisão à modo Big Bang; no estrondoso choque do tudo em todo lugar da globalização uma explosão saturada irradia à tela.

Sobrecarga ou A Constante Busca pelo Tudo (2022). Objetos diversos sobre tela 120 x 100 cm. Fonte: acervo pessoal.

Em seu processo criativo, Castro recolhe entulhos descartados e objetos de seu próprio convívio íntimo para a materialização dos trabalhos. Expressando uma intensa essência doméstica, as imagens em questão sugerem ao espectador uma relação direta a determinados objetos utilizados. Com isso, novas associações surgem com base na elaboração de narrativas ficcionais pautadas no consumo. A aproximação física dos componentes da assemblage, implicitamente, induz a pensá-los como referentes a uma realidade singular específica. Assim, a operação de apropriação de Castrenhos na arte perpassa não somente a apropriação objetual, mas também a apropriação da pessoalidade. Em nosso contexto hiper globalizado atual, as narrativas se constroem pelos rastros do consumo. Compreende-se o indivíduo pelo seu lixo. Ademais, tais hipotéticos personagens implícitos na produção do artista aparecem não pelo simples consumo, mas sim pelo descarte. Observa-se o usado, o antigo, o inutilizado e o rejeitado. O trabalho associativo de Castro reflete um mundo coberto de descartáveis e descartados.

O frequente uso de brinquedos em seus objetos explicita uma certa temporalidade. Comumente feito de plástico, o brinquedo existe tendo uma curta vida útil. Objeto consciente de sua própria validade reduzida como qualidade intrínseca, é manufaturado com uma duração muito específica em mente: 1 fase qualquer do desenvolvimento infantil. Diferentemente do produto com obsolescência programada, o brinquedo não é afetado em sua durabilidade, porém existe sempre diante uma natureza passageira. Protagonizando tal tipo de objeto nas assemblages, o artista, para além do resgate da nostalgia, também evidencia o brevíssimo ciclo de vida dos demais elementos. Nesse contexto, até mesmo peças de plástico de usufruto contínuo são descartadas mais rapidamente do que o objeto pré-datado.

Como um todo, a prática artística de Castrenhos se sensibiliza ao descarte enquanto nobilita as especificidades daqueles objetos indesejados. Partindo de uma ecologia visual, recicla os elementos do mundo para a composição artística. Elevando o olhar para o que foi recusado, salienta as relações industriais vigentes perante nosso contexto terceiro-mundista latino-americano. Assim, tecendo narrativas pela expressão dos subprodutos industriais, o artista resgata utilidade àqueles objetos e traz consciência aos nossos hábitos de consumo pós-globalização.

Subir as Escadas (2025). Assemblage sobre tapete, 1027 x 78 x 24 cm. Fonte: acervo pessoal.

Comentários

Deixe um comentário