Com o surgimento da arte não-objetual, o é do objeto se transforma no estar do sujeito. Possivelmente, o passageiro estar do artista poderia converter-se para o é do indivíduo?
Antes de compreender o é e o estar do trabalho de arte, é crucial diferenciar estes dois estados de existência. O é existe como a soma das totalidades, enquanto o estar existe como as totalidades de um recorte temporal específico. O é também pode ser entendido como o conjunto dos estares de um determinado elemento, desde sua concepção até o agora. No agora, temos a soma das totalidades de todos os estares.
O é do objeto de arte contempla a sua existência integralmente, já o estar na arte se relaciona comumente ao campo da Arte de Ação. A natureza efêmera da performance logicamente exige esta apreensão do estar ao invés do é. Na criação imagética deste campo artístico utilizam-se parâmetros e artifícios de leitura próprios para esta produção pautada no estar. A contextualização prévia de que o que está para acontecer é uma performance surge como uma moldura. O situamento em um museu/galeria ou a anunciação antecipada da ação são indícios que enquadram determinado evento como um estar na arte.
Ainda que a performance se distinga evidentemente do teatro, ambos seguem uma conduta social específica de apreensão e expressão, tanto por parte do público quanto por parte do artista. Na performance há a exibição do estar literal, enquanto no teatro o fingimento do é. O performer exibe ao público uma imagem no formato de uma ação, por vezes, fazendo uso de seu corpo como principal ferramenta criativa. Nesse instante, o artista provém o seu estar. Na conduta teatral, a ideia de personagem nega o estar; o público há de assimilar um é, fingido pelo ator. O personagem é lido pelo seu é, e não pelo estar.
Não sobre performance, mas sim sobre performatividade, a construção artística de um é de Helena Bohn com Cyborgloiro sugere uma perspectiva extremamente contemporânea acerca da subjetividade no mundo web. A pesquisa em arte através da NetArt de Bohn explora os moldes massificados controlados por algoritmos no Instagram, a fim de desdobrar questões acerca das imagens e autorrepresentações femininas. O constante acesso ao cotidiano de estranhos por meio das redes sociais provocou um falso senso de intimidade entre os usuários de internet. Helena Bohn se insere nesse contexto, porém sempre evidenciando o distanciamento real entre seus seguidores. O próprio fato de termos contato apenas com uma reprodução à 3 graus de distância da imagem original impõe este isolamento. O observado é a fotografia da impressão em sulfite, rearranjada em pixels em nossos celulares. Ainda que a temática da intimidade transpareça na produção da artista, sua forma proclama a real alienação sob Cyborgloiro.


(2023
). Fotografia em papel sulfite 21 x 29 cm. Fonte: @cyborgloiro no Instagram.
O raso é de Cyborgloiro expõe a intensa performatividade implícita na vida pública feminina. A unidimensionalização da persona mulher nas redes sociais se dá com Cyborgloiro por meio da expressão de cenas fabricadas para a incitação de uma intimidade. Ainda que nos meios de comunicação digital a exibição do íntimo já seja trivial, a demonstração de uma autoconsciência sobre esta profunda performatividade aparece como uma ruptura. Distinguindo-se das imagens de alta circulação, a produção de Bohn, sutilmente, provoca um despertar no espectador internauta; nos torna cientes do desconforto da falsificação de um é. Seu trabalho desacostuma o olhar com as elaboradas montagens e desmontagens realizadas para a construção performática de uma imagem, tanto artística como as presentes nas redes sociais.

Ao fazer uso do suporte digital Instagram, a artista insere a fotografia numa temporalidade específica de curta observação. Entretanto, elementos sugestivos manifestam-se retardando o olhar. Para além da estética hiperfeminina jovial, Cyborgloiro expõe as fragilidades de Helena. Esta persona bela e loira, materializada a cada novo post, não esconde sua autora. Enquanto externa uma superfície de um fabricado é, revela estilhaços de um estar artístico genuíno. Contestando a profundidade daquela falseada realidade performada.






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