Durante a tarde do dia 29 de julho, quatro diferentes artistas reuniram-se em uma roda de bate-papo para discutirem suas diferentes perspectivas acerca da questão da reprodutibilidade nos tempos atuais. Mediados por Luana Carvalho, a conversa “A Reprodutibilidade no Ultra-Contemporâneo” buscou construir novos olhares a respeito da produção artística curitibana, a partir de uma relação interpessoal entre crítico de arte e artista. No espaço atenciosamente cedido pela livraria Vertov, um diálogo alinhado aos fundamentos de Walter Benjamin fluiu com a troca de repertórios e subjetivações de cada profissional das artes.
Apesar da popularização do termo Capitalismo-tardio, as dinâmicas sociais perante as imagens vêm transformando-se com uma aceleração nunca antes vista. Nisso, surge a necessidade em trazer uma nova denominação para os fenômenos socioculturais emergentes dos últimos 5-10 anos. O Ultra-contemporâneo caracteriza-se, em suma, pela impermanência dos signos e alta mutabilidade dos parâmetros e tendências estéticas. Entretanto, é de grande importância apreender a ultra-contemporaneidade como uma temporalidade associada aos territórios do Sul-Global. As discussões tidas durante o evento levaram em consideração as especificidades do Brasil no circuito global de produção e reprodução de imagens.
O Brasil instaurou-se a partir de uma tendência colonizatória desenvolvimentista. Nesse contexto, a posição imposta ao nosso país na dinâmica de produção imagética é persistentemente limitada. O próprio conceito de colonização pode ser compreendido como a inibição do direito de produzir imagens para a imposição da reprodução das imagens do colono. Assim, movimentos artísticos brasileiros que se demonstraram conscientes de tal condição colonial sempre implicaram uma colocação de reprodução imagética (pensemos, Antropofagia ou Nova Figuração).
“Eu percebo que as pessoas do Sul-global estão extremamente cientes de que estão consumindo algo que está sendo vendido a elas. Não importa o quanto você tente treinar uma pessoa do Sul-global a só consumir, ela não consegue. Porque o trauma do colonialismo, o trauma de viver em subjugação faz que qualquer pessoa entenda isso. (…) As pessoas têm um entendimento nato de que elas estão sendo subjugadas. Eu fico chocada no Canadá, o quanto as pessoas não entendem que são uma colônia.” (Larissa Barddal Fantini, 2025).
Os artistas compartilharam suas respectivas experiências, evidenciando a diversidade de panoramas dentre um similar contexto. Como um todo, foi possível notabilizar múltiplas soluções imagéticas para a problemática da hiperreprodutibilidade no Sul-global. Compreendendo a superação aurática, proposta por Duchamp, esses trabalhos tomam base na dissolução da “originalidade” e edificam-se sob o pretexto do mundano. Assim gerando tensionamentos acerca da reprodutibilidade pela última década.
As assemblages de Castrenhos surgem dentro de um contexto de ecologia visual, rompendo ciclos extensivos de reprodução da imagem ao descaracterizar completamente o objeto. Remove determinada tralha de plástico do campo “objeto” e insere-a em uma tela como matéria pictórica. Ao Castro afirmar que com seus trabalhos “É tentar entender o consumo a partir das relações (…)”, se assimila uma realidade na qual o consumo é o fator central na construção das identidades.
Nesse âmbito, as imagens de performatividade de Helena Bohn assumem consciência como objetos relacionais de desejo. Pela idealização da figura feminina loira inacessível, se manifesta um molde de comportamento a ser reproduzido. Explorando a mecânica das redes sociais, na qual toda imagem é inerentemente reprodução e reprodutível, uma nova forma de trabalho artístico é abordada com Cyborgloiro. Na ilusão de exibição de um indivíduo pleno que se constrói um ato artístico que é simultaneamente eterno e inexistente.
“São sempre industrializados. Não importa o objeto que eu encontre, é um brinquedo, um eletrodoméstico, um resíduo de construção civil. Até mesmo os objetos mais artesanais passam por algum tipo de processo industrial até chegarem onde eles chegaram. Mas eu gosto de me apropriar desses objetos para criar narrativas que tenham um caráter muito relacional e pessoal.” (Castrenhos, 2025. Fala extraída durante o bate-papo)
E, justamente na pessoalidade pautada em produtos industrializados que os Minions, de João Konno, surgem. A afetividade construída na infância com as criaturas amarelas se assemelha ao afeto relacional com a comida. Nisso, as cerâmicas de Larissa Barddal Fantini também se aprofundam sobre este objeto de consumo que na contemporaneidade foi massificado pela produção industrial de larga escala.
O bate-papo A Reprodutibilidade no Ultra-contemporâneo marcou uma inauguração das atividades públicas do projeto cri.art. Transpassando colocações já abordadas nos textos em debates vivos próximos ao público. Como um todo, a promoção do evento forneceu uma demonstração de novas maneiras de como conduzir crítica de arte na atualidade. Deste modo, elevando o discurso como prática coletiva em eterna construção.

Deixe um comentário