Os Novos Rituais de Larissa Barddal Fantini.

No contexto de Capitalismo tardio, até mesmo a dinâmica entre as marcas e seus produtos foi afetada pela doutrina neoliberal. Como Baudrillard postulou em 1981, com Simulacres et Simulation, o que se conhecia por realidade foi substituído por simulacros, a partir da projeção de signos. E nisso, as marcas protagonizaram esse processo generalizado. Larissa Barddal Fantini se debruça sobre os novos símbolos universais da contemporaneidade com trabalhos em cerâmica vitrificada. 

O processo de hegemonização cultural, comumente atrelado à globalização, descende, especificamente, de outro sintoma do domínio neoliberal: a monopolização empresarial. Com o apoderamento das indústrias sob o controle de seletas poucas empresas, os produtos e subprodutos consequentes caracterizam-se sempre pelos mesmos moldes e métodos, dentre os valores de determinada companhia. Logicamente, os produtos alimentícios industrializados disponibilizados à população média também são afetados por essa lógica hegemônica. Pelo fato de tais conglomerados empresariais chefiarem toda a cadeia produtiva dos alimentos, uma mesma lógica ordena os mais variados processos na fabricação dos mais diversos produtos. Por utilizarem os mesmos fornecedores, máquinas, transportes, distribuidores etc. produtos de naturezas distintas acabam adquirindo curiosas semelhanças. 

E essa homogeneização possui uma feição característica; a da identidade da marca. Asseguradamente, multinacionais exportam variações de pior qualidade de determinados produtos a países tercermundistas a fins de redução de gastos. E é no barateamento do custo de produção de alimentos que a homogeneização dos produtos se intensifica. Ao utilizar de um seleto repertório de estratégias e substitutos alimentícios que determinados produtos acabam adquirindo atributos parecidos. 

Ao estilo de David Foster Wallace, Barddal Fantini descreve sua produção como “fanart das marcas”. O futuro ultra-neoliberal, semi-ficcional e quase distópico de Wallace, em Graça Infinita (1996), exibe a primeira década do século XXI, na qual a denominação dos anos é privatizada. “Ano Whopper”, ou “Ano Chocolate Dove tamanho Boquinha” são expectativas consideráveis para o terceiro-mundo Ocidental, onde linhas de metrô vendem seus naming rights. Linha Ultrafarma e Linha Assai Atacadista são uma realidade em dois mil e vinte e cinco. A cooptação cultural por parte das marcas vem sendo inevitável. Realisticamente, as cerâmicas de Larissa Fantini expressam um dos maiores sintomas de nossa época sem qualquer tipo de julgamento moral. Existe um tom de realismo tanto para o sentido de intermédio entre pessimismo e otimismo, quanto ao sentido do movimento artístico do século XIX. A representação objetiva e amoral da realidade que a artista sugere demonstra uma perspectiva de adaptabilidade.  

No novo contexto de produção industrial, em detrimento à artesanal, Barddal Fantini escolhe apreender a realidade mercadológica-cultural com a aceitação dos novos paradigmas da contemporaneidade. A cultura do Capitalismo é cultura.

Blowtex® Banana (2022). Cerâmica faiança esmaltada. Fonte: acervo pessoal.

A infame Janta® (2018), colaboração com Silvina Rodriguez na Galeria Soma, foi uma ação artística integrativa de assimilação da cultura de consumo. Unindo o tradicional e o inovativo, o massificado e o particular, o afetivo e o industrial, Larissa Barddal Fantini expõe honestamente as dinâmicas de afetividade culinária do atual período. As memórias afetivas do comer foram também privatizadas.  

Orquestrando um espaço de mesa de jantar de grama sintética dentro do cubo branco, contando com um variado banquete, a artista apaga definitivamente os instáveis limites entre Arte e Design de produto, e cultura e Capitalismo. O público se vê diante de uma mesa posta decorada cheia de pratos de cerâmica coloridos com logomarcas, alimentos preparados humanamente e esculturas estampadas como produtos em formato de comida. Na confusão entre o deglutível e o objetual, o artesanal e o industrial, qualquer coisa importa para qualquer coisa. O adentramento de um sob outro nos torna indiferentes sobre a origem daquilo que consumimos. Afetuosamente, compartilhando deliciosos pratos travestidos de marcas e vice-versa, uma nova forma de ritual é declarada. 

Elma Chips® (2019). Óleo e gesso sobre tela. Fonte: acervo pessoal.

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