Ainda não estamos prontos para abolir estruturas. Comentários gerais acerca da polêmica decisão curatorial da 36º Bienal de São Paulo.

Há exatamente 1 mês que a 36º Bienal de São Paulo abre oficialmente ao público e suas decisões curatoriais já vem sendo questionadas. A escolha de Bonaventure Soh Bejeng Ndikung em não expor diretamente a ficha técnica dos trabalhos vem sendo o artifício mais criticado desta exposição. Entretanto, o julgamento acerca da dita “falta de contexto” talvez seja apenas mais uma demonstração de pessimismo com o público. Ademais, o aborrecimento diante o plano curatorial de Ndikung e sua equipe demonstra (novamente) como ainda não estamos prontos para ações incisivas de autonomização da Arte em relação às dependências econômicas e culturais de autoria.

Com a proposição Nem Todo Viandante Anda Estradas- Da Humanidade como Prática, a 36º Bienal de SP flexiona a noção e o exercício da humanidade como um verbo. Nesse contexto, a própria sugestão de um conceito de humanidade pareceu contradizer a presença da arte indígena, para alguns críticos. Como Fabio Cypriano apontou em seu ensaio para a Arte!Brasileiros, tal curadoria, de diferentes formas, reproduziu atos colonialistas, especialmente pela descontextualização. Entretanto, observo que a consideração do trabalho de Bonaventure Ndikung como confuso, e questionavelmente antiético, só é válida em lentes canonizadas. A partir de uma leitura que toma o mercado de arte contemporânea como régua estandardizada para todas as práticas curatoriais, é possível sim determinar as decisões da equipe desta última bienal como problemáticas. No entanto, Bonaventure Soh Bejeng Ndikung expressa confiantemente sua autonomia como encabeçado de uma bienal internacional que dita tendências e não de uma que as reproduz. Nesta, não se propõe “humanidade” como artifício de distinção humanista entre as formas de vida e não-vida, mas sim como ferramenta de alteridade.

Nessa situação, há uma valorização exacerbada dos recursos anexos de uma obra de arte, como a ficha técnica e a assinatura. Recursos tais, que descendem de uma longa tradição branca de museu. A compulsoriedade de etiquetar os objetos de arte colide de frente com hábitos culturais dissidentes de não-segregação entre arte e vida. A existência do (dito inseparável) par obra-ficha técnica descende de uma tendência positivista de catalogação do mundo. Este rótulo padronizado, distintivo daquilo que pertence ao sacro dogma: Arte. Pensemos; como compartilhar de expressões artísticas não-europeias num espaço institucional, como o museu ou até mesmo a própria Bienal de São Paulo? É de consenso geral que não há uma resposta única, no entanto, talvez seja de consenso maior de que não é enquadrando percepções e métodos institucionais nestas artes, mas sim o contrário. Na coexistência da arte Ocidental-Oriental, Norte-Sul, Centro-Periferia, não é pela adequação aos sistemas que tal convívio múltiplo aflora, mas pela reforma das instituições que as abrigam.

Igualmente ocorre com a problematização do ocultamento imediato dos autores. Agregando trabalhos descendentes de tradições coletivistas, a curadoria da 36º Bienal demonstra-se adepta aos modos anticlássicos de exibição. Novamente, Ndikung reforça o conceito de humanidade como espaço de congregação heterogênea, em detrimento de uma subordinação expositiva estreita. Para quem ainda não perdeu o hábito de inventariar arte, a curadoria disponibiliza guias e mapas. No entanto, o convite geral ao público é de uma outra experiência. E, nisso, “outra” também sendo diferentemente de outras instituições.

Como em uma de suas muitas propostas museológicas, Mario Pedrosa reenfatiza a necessidade de um museu didático. Contudo, sem apostilar (no sentido de criar apostilas) o papel educativo de uma exposição. A apreensão de um trabalho de arte, ainda que possa exigir sensibilidade, observação e pesquisa, não se enquadra numa metodologia analítica científica, logo, não há padronização das maneiras (PEDROSA, 1995). Associando também o fato da impossibilidade de fim na compreensão de uma obra de arte, juntamente ao questionamento da própria noção de compreensibilidade da arte (SONTAG, 2020) que determinar tal decisão curatorial como confusa aparenta como um argumento impreciso. Ao dizer: “Em síntese, há pouca generosidade com o público.” (CYPRIANO, 2025) se infere a necessidade de uma compreensão unificada da exposição, além de um desentendimento da experiência contemplativa-estética.

Como um todo, as estratégias curatoriais de Bonaventure Ndikung persistem educando ao público a partir de uma autonomização do pensamento, e educando o mercado de arte com suas proposições divergentes. Questionando as múltiplas dependências envolvidas na produção de uma bienal, o trabalho desenvolvido na Bienal de São Paulo de 2025, indubitavelmente, abalou o circuito artístico contemporâneo. Por fim, determinada decisão curatorial surgiu como um exemplo de ação que abalou as formas de se exibir arte.

Referências:

CYPRIANO, Fabio. Falta de contexto confunde 36ª Bienal de São Paulo. 2025. Disponível em: https://artebrasileiros.com.br/arte/bienais/falta-de-contexto-confunde-36a-bienal-de-sao-paulo/

PEDROSA, Mario. “Museu, Instrumento de Síntese”, Política das Artes. Textos Escolhidos I. Org. de Otília Arantes. São Paulo: Edusp, 1995.

SONTAG, Susan. Contra a Interpretação e Outros Ensaios. 2020. São Paulo: Companhia das letras.

Comentários

Deixe um comentário