À medida em que o monstro é definido pela sua existência à borda da humanidade, as obras de Toni Graton se caracterizam também por uma presença de borda. Como Lucio Agra relataria em sua tese Monstrutivismo, Reta e Curva das Vanguardas (2010), a ideia de monstruosidade foi intrínseca na construção do imaginário artístico e cultural brasileiro durante a contemporaneidade. Assim, Agra define o monstro como o ser que está no limite máximo do que ainda pode ser compreendido como do homem. E é nesse distanciamento, que apesar de longe ainda é do mesmo, que o horror monstruoso surge. O fato desta criatura não poder ser propelida para a categoria de “outro” é o elemento crítico da identidade do monstro.

Como um todo, a produção de Graton compele seus elementos conceituais, estéticos e linguísticos para múltiplos espaços situados nas bordas de cada respectivo campo. Para além da simples retratação de figuras identificadas como demônios, bichos e afins, o artista explora a fundo a identidade monstruosa aplicada.
Como produtor de imagens multidisciplinares, é perceptível a ambiguidade e, por vezes, fusão de linguagens. Contudo, questões escultóricas parecem permear os trabalhos de Toni Graton em maior regularidade. Desde seus desenhos e pinturas até suas calcogravuras e tatuagens, a construção da forma se dá pelo aglomeramento de massas argilosas. O grafismo bidimensional que força ilusões de uma terceira dimensão adquire um teor de sinceridade nas mãos do artista, ao imputar profundidade e volume literais nas imagens. Isto, tanto de maneira objetiva com o método do gravurista, quanto imaginativamente pelo modo do escultor.

Gravura em metal, água forte.
17 x 20 cm. Fonte: acervo pessoal.
Frequentemente, as esculturas de Toni Graton produzem uma gravitação própria ao se colocarem como lugares onde as coisas acontecem ao redor, e não apenas como objetos (descrição do próprio artista). Nesse contexto, podemos repensar os vazios na escultura de uma forma ainda mais nítida. A polidez das extremidades e dos afundados evidencia a presença dos ocos e das lacunas de massa. Ao lidar com cerâmica, se fazer consciente dos esvaziados e das superfícies em vácuo acaba sendo um pré-requisito essencial da técnica. Ponderando sobre as ocagens, nichos e recuos, Graton fabrica vazios permanentes e condicionais, refletindo acerca da natureza do tempo do trabalho do ceramista.
Quando o artista em questão produz esculturas não-maciças ele elabora um espaço esvaziado, que com a queima da argila o isolará para sempre, enrijecendo paredes sólidas de cerâmica em seu envolto. Nesse, o monstro é capturado no interior do vaso, transparecendo pelas bordas daquela superfície de barro endurecido. A imagem monstruosa se pressiona de dentro para fora, espremendo as margens ao seu próprio limite.

Por outro lado, a abertura eventual da forma prima das esculturas de Toni explora a superfície quase que topológica dos vasos. Como o próprio descreve, tais trabalhos são esculturas de vasos, e não a apresentação literal deste objeto. Orbitando as bordas da definição do que é um jarro, tais obras investigam pontos de abertura na forma que revelam; revelam um mundo interior oculto. Com a inserção de tampas, Graton estende para ainda mais além este jogo de espiar para dentro. Ainda que suas obras se tratem de objetos não-interativos, a presença de uma peça desanexada seduz, com uma sugestão de vácuo a ser rompido. Uma caixa de Pandora que contém os monstros.

25 x 16,5 x 9 cm. Fonte: acervo pessoal.

20,5 x 19 x 11 cm. Fonte: acervo pessoal.
Nisso, com seres que beiram à monstruosidade e esculturas que beiram à vasificação, Toni Graton incorpora as bordas e as grutas. A questão da caverna1 surge para ilustrar a presença desses ambientes vivos criados pelo artista. Caracterizando os dentros e foras, abertos e fechados, fundos e relevos. Tudo isso, a partir da imagem cavernosa de um corpo-objeto; vivo e habitado.

19,5 x 36 x 26 cm. Fonte: acervo pessoal.

20,5 x 15,5 x 10 cm. Fonte: acervo pessoal.
- Formação geológica natural de cavidade subterrânea. O interior de uma caverna é conhecido pela altíssima estabilidade ambiental de seus biomas. O isolamento térmico, luminoso e espacial dela faz com que a qualquer estação do ano a temperatura e umidade no interior de uma caverna sejam sempre, aproximadamente, as mesmas. ↩︎

Deixe um comentário