Categoria: ensaios críticos

  • A Prática Refletiva dos Desenhos de Victoria Dupré

    A Prática Refletiva dos Desenhos de Victoria Dupré

    O tratamento fotorrealista na produção de Victoria Dupré ocupa um espaço peculiar dentro do campo do desenho. E não no sentido de “visualmente fidedigno, tal qual uma foto” mas no senso de verdadeiro à realidade opaca da fotografia. Neste cenário, há o congelamento de um olhar errante, que dispara rápidas encaradas furtivas nas pernas de moças desmembradas, ou então de membros desmoçados. A transposição da imagem cinematográfica para a tela em seu momento criativo expõe um processo de petrificação da imagem originária. E nessa geologia, o movimento decorre na velocidade da pedra; quase imperceptivelmente. A cinética destes desenhos é executada numa escala tão diminuta que a olho nu torna-se impossível decifrar o sentido daqueles corpos rochosos.

    Sem título (2024). Lápis grafite sobre gesso sobre painel. 50 x 50 cm.

    O aparecimento contínuo de acessórios como sapatilhas, laços e saias é um dado que referência o signo do objeto em si, mas não da pessoa que os veste. Determinados símbolos que aludem a uma feminilidade são apresentados como peças de roupa na intenção de despersonificar a ideia construída de um feminino. Se exibe um produto manufaturado, que, independentemente de quem o vestir, continuará sendo o portador de uma subjetividade artificial. Os personagens representados nos desenhos usando tais vestes são indiferentes para a ideia evocada com a obra. O que há são manequins que nos ajudam na visualização da roupa em execução.

    Blu Profondo (Azul Profundo) (2025). Lápis grafite sobre gesso sobre painel. 150 x 150 cm.

    Ao despir suas imagens de cor e movimento com o desenho em grafite, Dupré traz a luz como questão ambígua. Para além das noções técnicas básicas de claro-escuro e profundidade, as propriedades inerentes do material depositado são colocadas em jogo. Em regiões de maior impregnação de mancha o objetivo é o escurecimento, a penumbra, entretanto a refletividade do grafite compactado dispersa boa parte da luz projetada (fenômeno perceptível apenas pela observação direta do sujeito com o desenho). São imagens que refletem duplamente; pelo branquíssimo que rejeita todas as cores, e pela natureza atômica do material utilizado, que devolve luminosidade igualmente. Talvez seja exatamente por esse brilho intenso mascarado de escuridão que os desenhos de Dupré ocupem uma presença tão distinta. Chiaroscuro ou Preto e Branco não são adjetivações suficientes para contemplar o trabalho visual dessa desenhista.

    Sem título (2026). Lápis grafite sobre papel. 29 x 24 cm.

    Um elemento elogiável dos desenhos de Victória Dupré é a autêntica unicidade de cada trabalho. Abocanhar toda a produção da desenhista a partir de uma única ótica seria penoso, ainda que à primeira vista haja uma semelhança visual muito grande de um modo geral. Elementos formais como materialidade, proporção, tema e até mesmo estilo se repetem frequentemente. No entanto, a questão central de cada obra, tal como o discurso presente, se exibe de maneira singular a cada vez. Para apreender todas essas imagens numa lógica seriada é preciso compreender discordâncias de igual valor de verdade em simultaneidade.